Entrevista
Mayara Duarte: a voz suave que acolhe as dores silenciadas
4 JUL 2025 • POR Glenda Melo • 09h21Por trás de um olhar sereno e palavras que curam, vive uma mulher que fez do acolhimento sua missão. A entrevistada da semana do Diário do Estado é alguém que não apenas escutou os gritos calados das vítimas de violência doméstica ela escolheu estar ao lado delas, todos os dias, com coragem, técnica e empatia. Seu nome é Mayara Christine Duarte, psicóloga social, escritora, pesquisadora e, sobretudo, mulher em movimento.
Nascida em Cuiabá, Mato Grosso, Mayara tem 32 anos e há uma década construiu raízes em Coxim, no norte de Mato Grosso do Sul. É mãe de Dasthan, de 7 anos, e da pequena Sarah, recém-nascida seus dois maiores amores e fontes diárias de força. Com uma formação sólida e admirável, Mayara é mestra em Estudos de Culturas Contemporâneas pela UFMT, com múltiplas especializações em áreas como Psicologia Hospitalar, Filosofia, Sociologia, Serviço Social e Políticas Públicas em Saúde. Mas mais do que títulos, sua atuação carrega propósito.
Concursada no Município de Coxim, ela atua como psicóloga social à frente do CREAS (Centro de Referência Especializado de Assistência Social), sendo peça fundamental na Política Nacional de Enfrentamento à Violência contra as Mulheres. Também ocupa espaços de decisão: é conselheira titular do Conselho Estadual dos Direitos da Mulher de Mato Grosso do Sul (CEDM/MS) e do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher de Coxim, indicada pelo Conselho Regional de Psicologia.
Mayara é, ainda, autora de livros e artigos acadêmicos que abordam temas urgentes como violência contra a mulher, transexualidade, saúde pública e tessituras sociais. Sua escrita nasce da escuta cotidiana, do chão da realidade e da esperança que persiste mesmo em contextos de dor.
Sua trajetória é marcada por um compromisso inegociável: dar voz às mulheres que foram silenciadas pela violência, oferecendo não só escuta e acolhimento, mas também estratégias para que possam reconstruir suas vidas com dignidade.
Nesta edição especial, o Diário do Estado mergulha na história de quem transformou a dor do outro em causa pessoal, de quem carrega ciência nas mãos e empatia no coração. Uma mulher que, sem fazer alarde, muda o mundo um atendimento por vez.
Diário do Estado: O que te motivou a escolher a Psicologia como profissão e, mais especificamente, a atuar com mulheres vítimas de violência?
Mayara: Minha primeira paixão foi a Filosofia, inclusive foi minha primeira graduação. Comecei ainda muito jovem, com 16, 17 anos, e essa base filosófica sempre me acompanhou. A Psicologia veio junto com esse senso questionador e sensível. E eu, nunca pensei, inicialmente, em atuar diretamente com mulheres vítimas de violência. Mas sempre acreditei que a Psicologia poderia ser uma ferramenta de transformação social. Hoje, eu atuo como psicóloga social e entendo que é nesse entrelaçamento entre teoria, prática e compromisso que eu posso promover mudanças reais, ao menos tento.
Diário do Estado: Como foi o seu primeiro atendimento nesse contexto e de que forma ele impactou sua trajetória profissional?
Mayara: Foi ainda no início da minha atuação, quando passei a lidar com diversas demandas envolvendo violações de direitos , e a violência doméstica estava lá. Entendi ali que a violência é apenas uma das violações de direitos dentro de um contexto social mais amplo. O sofrimento não é isolado, é atravessado por questões econômicas, familiares, institucionais, culturais.
Diário do Estado: Em que momento da sua carreira você percebeu que era preciso olhar com mais profundidade para o sofrimento psíquico das mulheres vítimas de violência?
Mayara: Acho que desde que me reconheci como mulher, percebi que nós, mulheres, somos bombardeadas por violências sutis no dia a dia. Esse entendimento não surgiu apenas da prática profissional, mas da vida mesmo. Vendo todas as mulheres que cruzaram o meu caminho, minhas familiares, minhas amigas e com os relatos que chegavam até mim nos atendimentos, ficava claro que era necessário olhar com profundidade, com escuta e com política. Estudar sobre isso também me levou a aprofundar essa reflexão, especialmente ao pesquisar o sofrimento psíquico de mulheres transexuais e travestis vítimas de violência doméstica, um recorte ainda mais invisibilizado.
Diário do Estado: Quais são os impactos psicológicos mais comuns causados pela violência doméstica e de gênero?
Mayara: A violência compromete profundamente a autoestima, o senso de identidade e a autonomia. Alem de muitos quadros de depressão, ansiedade e trauma são consequências . Mas talvez o impacto mais cruel seja o silenciamento, silenciamento no sentindo do apagamento mesmo, como pessoa sabe ? Quando a mulher acredita que perde essa possibilidade de se reconhecer como sujeito de sua história.
Diário do Estado: De que forma o medo e a vergonha influenciam a decisão de uma mulher buscar ajuda?
Mayara: Muitas mulheres não denunciam por medo da impunidade ou vergonha de serem desacreditadas. E esse medo não é infundado não, não posso ser hipócrita, o sistema muitas vezes, falha. Inumeras me deparei com situações em que a rede não funcionou como deveria, e pra mim, a vergonha, nesse caso, não é da mulher. É do sistema que não a acolhe.
Diário do Estado: Como a violência emocional e psicológica pode ser tão ou mais devastadora que a física?
Mayara: Porque ela age em silêncio, ela corrói a mulher por dentro, destroi sua confiança. É uma violência que aprisiona, mesmo sem deixar marcas visíveis. E justamente por não ser facilmente reconhecida, acaba sendo ainda mais perigosa e duradoura.
Diário do Estado: Existem traços em comum entre as mulheres que você atende ou cada caso revela uma realidade totalmente distinta?
Mayara: Não existe um perfil de vítima, o que existe é um sistema machista que atravessa todas nós, inclusive mulheres viu? As histórias são distintas e diferentes, mas o padrão da violência se repete. A forma como ela é construída e aceita socialmente ainda é muito semelhante em diferentes contextos, sendo com mulheres mais ricas, menos vulneráveis financeiramente, parda, preta, indígena, nenhuma de nós sai ilesa.
Diário do Estado: Qual é o papel da família e da rede de apoio no processo de superação da violência?
Mayara: É fundamental, nenhuma mulher deveria enfrentar esse processo sozinha. Uma rede de apoio empática, que acredita e acolhe, pode ser o ponto de virada na vida de alguém, não só em caso de violência domestica. Mas muitas vezes, infelizmente, a própria família é conivente ou silencia, o que torna tudo ainda mais difícil.
Diário do Estado: Coxim e a região norte de MS oferecem estrutura suficiente para acolher e proteger essas mulheres?
Mayara: O Estado conta com uma rede de enfrentamento à violência, com serviços distribuídos pelos municípios, mas a forma como essa rede funciona na prática varia muito. Ao longo desses 10 anos que estou em Coxim, posso afirmar que estrutura existe, mas precisa ser fortalecida e melhor gerida. Eu falo de formação adequada, articulação entre setores e, principalmente, sensibilidade por parte de alguns profissionais.
Diário do Estado: Como você avalia a atuação da rede pública de saúde, segurança e assistência social nesse enfrentamento?
Mayara: Existe um movimento de esforço institucional, mas muitas vezes ele esbarra no despreparo ou na insensibilidade de quem está na linha de frente. Não basta ter políticas públicas no papel, é preciso que elas funcionem de forma integrada, com escuta ativa e respeito. Enquanto isso não acontecer, vamos continuar vendo o sistema falhar com quem mais precisa, infelizmente.
Diário do Estado: Quais são os maiores desafios emocionais e profissionais que você enfrenta nesse tipo de atendimento?
Mayara: Um dos maiores desafios é me manter no lugar técnico diante de histórias que me atravessam como mulher, como mãe, como cidadã. A linha entre o pessoal e o profissional, às vezes, é muito fina. Mas é também esse atravessamento que dá sentido ao que faço, e que me move a continuar.
Diário do Estado: Já houve momentos em que você sentiu que não ia conseguir ajudar ou que o sistema falhou? Como lidou com isso?
Mayara: Claro, e isso não é raro. Um dos casos que envolveu mulher transexual e vítima de violência, virou tema da minha dissertação do mestrado. Nesses casos, por exemplo, o sistema falha de forma ainda mais brutal. Se já é difícil para uma mulher cis e heteronormativa, considerada mulher ideal ser acolhida, imagine para aquelas que nem são reconhecidas como mulheres pela sociedade? Foi doloroso, mas também decisivo para minha atuação e produção acadêmica.
Diário do Estado: Como manter o equilíbrio emocional diante de tantas histórias marcadas por dor e trauma?
Mayara: Cada história que passa por mim deixa um pouco de si e leva um pouco de mim. E, apesar da dor, isso também é força. Saber que, de alguma forma, contribuí para que uma mulher reconquistasse liberdade e dignidade me faz tão bem quanto faz a ela. Muitas me procuram depois nas ruas, no mercado, nas redes, para agradecer ou para indicar a outras mulheres. Isso reforça que estamos no caminho certo, uma ajudando a outra.
Diário do Estado: Como a sociedade pode atuar de forma mais eficaz na prevenção da violência contra a mulher?
Mayara: Com informação. Defendo que a melhor forma de prevenção é o conhecimento desde cedo. Precisamos falar sobre isso nas escolas, com crianças e adolescentes, e também dentro de casa. Incentivar nossos filhos e filhas a pesquisar, a se posicionar, a respeitar. Entender que a violência contra a mulher não é um problema individual, é um fenômeno social.
Diário do Estado: Qual o papel das escolas e das famílias na desconstrução de padrões que perpetuam o machismo e o abuso?
Mayara: É o mesmo da resposta anterior, e é ainda mais urgente. A escola forma pensamento, a família forma afetos. Quando as duas falham, o machismo cresce. Precisamos educar para a equidade, desde os primeiros anos de vida.
Diário do Estado: O que você diria para uma adolescente que começa a vivenciar sinais de um relacionamento abusivo?
Mayara: Diria que amor não machuca. Que se está doendo, já passou da hora de repensar. Que proibir, controlar, humilhar não é cuidado, por mais que pareça ou que ensinaram dessa forma. E que ela não está sozinha, existem caminhos, redes e pessoas dispostas a ajudar.
Diário do Estado: O que a escuta clínica com essas mulheres te ensinou sobre a força e a resiliência feminina?
Mayara: Me ensinou que a força das mulheres é, muitas vezes, silenciosa, mas imensa. Que ser considerada como “loucas, histéricas, aparecidas” muitas vezes são adjetivos de mulheres que resistem. Elas resistem, mesmo quando tudo diz para desistir. E é nessa escuta, nesse espaço de acolhimento, que elas conseguem se reerguer e me ensinam também a continuar.
Diário do Estado: Existe um momento na terapia que você considera como “virada de chave” para a mulher vítima de violência?
Mayara: Sim. Geralmente, quando ela se permite se escutar. Quando compreende que aquilo que vive não é normal. Esse despertar é transformador.
Diário do Estado: Como a psicoterapia pode ajudar na reconstrução da autoestima e da autonomia dessas mulheres?
Mayara: Oferecendo escuta, segurança e liberdade. A psicoterapia ajuda a mulher a se reconhecer de novo, a refazer laços consigo mesma, a se reapropriar do próprio corpo, da própria vida.
Diário do Estado: Na sua opinião, o que ainda falta para que a violência contra a mulher deixe de ser naturalizada em nossa sociedade?
Mayara: Falta enfrentamento real. Falta parar de romantizar comportamentos abusivos. Falta responsabilizar os agressores. Falta coragem social de mudar.
Diário do Estado: Que mensagem você deixaria para mulheres que estão vivendo situações de violência, mas ainda não conseguiram pedir ajuda?
Mayara: Você não está sozinha, você não é fraca ,e não tem nada de errado com você. Você merece viver com liberdade, respeito e dignidade. Existe vida depois da violência. E ela pode começar com um simples pedido de ajuda.
Diário do Estado: E para os profissionais que atuam nessa área: que conselhos você daria para que sigam firmes e humanos nessa missão?
Mayara: Cuidem de si. Não se percam nos protocolos e números, e lembrem que cada mulher é uma vida. E que escutar com humanidade já é um ato de resistência.
Diário do Estado: Suas considerações finais para o jornal Diário do Estado e seus leitores.
Mayara: Agradeço de coração ao Diário do Estado pelo espaço e pela confiança em me permitir compartilhar. Falar sobre violência contra a mulher é mais do que necessário, é urgente. Meu sincero agradecimento aos leitores e à equipe do jornal, e que nossa maior vitória seja construir uma sociedade onde nenhuma mulher precise lutar por dignidade.
A violência compromete
profundamente a autoestima,
o senso de identidade e a
autonomia. Mas talvez o
impacto mais cruel seja o silenciamento —
quando a mulher acredita que perde a possibilidade de se
reconhecer como sujeito de sua história.
