Orgulhos Coxinenses
Zé Português: o escultor do tempo, o homem que virou memória viva do Pantanal
27 JUN 2025 • POR Glenda Melo • 09h08Há homens que passam. Há homens que ficam.
E há aqueles que se tornam chão, vento, pedra, raiz e memória como é o caso de José Alves Branco Correia, o Zé Português, figura que não se mede apenas por datas ou títulos, mas pela imensidão do que construiu com as mãos, com o coração e com a alma.
Nascido em 13 de abril de 1948, numa terra onde a poesia se mistura com a pedra antiga de Coimbra, enquanto seu pai ainda sonhava em se tornar médico na renomada universidade da cidade, José Branco desde cedo foi forjado pelo barro da vida e pelo fogo da cultura. Filho do Professor Doutor Adolfo Branco Nunes Correia e da escritora Irene Alves Branco Correia, herdou da mãe a verve literária e do pai a visão universal. Foi menino de quinta, não apenas por viver nas Quintas portuguesas como a da Comenda e a Grande dos Brigadeiros, mas porque desde criança já demonstrava ser nobre na essência.
Seu caminhar passou por escolas de palmatória e colégios de padres, por internatos africanos e experiências londrinas. Esteve no campo e no quartel, foi regente agrícola e capitão de um tempo onde a honra ainda tinha nome próprio. Mas nenhum desses caminhos foi mais decisivo do que a estrada de terra que o trouxe, em 1979, a bordo de um fusca vermelho, ao coração do Pantanal Sul-Mato-Grossense, com a mulher amada, um cachorro fiel e a alma aberta para o desconhecido.
Foi amor à primeira vista com o Rio Taquari. O mesmo rio que os poetas descrevem com metáforas, ele acolheu como lar. Em Coxim, Zé Branco não apenas fixou morada plantou história. Ali, onde a natureza ainda canta alto, ele fez da sua casa um santuário de vidas, artes e memórias.
Homem de generosidade rara, acolheu amigos caídos, doentes esquecidos, alcoólatras em recuperação e crianças sem lar. Cozinhou para os famintos, dividiu sua cama com os necessitados e entregou o próprio carro para salvar vidas. Não o fez por medalhas, mas porque seu coração é feito de uma matéria rara: a solidariedade desinteressada.
Foi professor, diretor, gerente, pescador profissional. Deu aulas de português, geografia e esperança. Pedalou garupas para levar conhecimento às periferias e trocou uma bicicleta por aulas de matemática. Nunca negou esforço, mesmo quando o cansaço se sentava ao seu lado.
Mas foi na argila, matéria-prima ancestral, que ele encontrou sua forma mais pura de expressão. A arte que herdou da mãe e da madrasta transformou-se em bustos, presépios, estátuas e em algo ainda maior: o Museu Parque Temático Histórico do Pantanal, fundado oficialmente em 2003, e que hoje é um monumento à memória coletiva da região. Ali, entre árvores e sombras, ele moldou com barro o que o tempo não ousou apagar: os rostos, os gestos e os feitos que compõem o espírito coxinense.
Mais que escultor, Zé Branco é guardião de histórias. Fala francês, inglês, português com sotaque de mundo e coração pantaneiro. Seus livros preferidos, guardados como relíquias em seu cofre de metal Florbela Espanca, Júlio Verne revelam a alma sensível e viajante desse homem que conhece o peso das palavras e a leveza dos sonhos.
Foi fundador do Jornal Correio do Pantanal, veículo que durante anos oficializou a voz da cidade. Criou a Biblioteca Comunitária João Maurício Roque, abrigo de cerca de 10 mil livros, porque sabe que um povo que lê é um povo que voa.
Hoje, quem pisa no Museu sente algo mais: sente presença viva. Cada peça, cada estátua, cada sala tem sua assinatura, não só artística, mas afetiva. Zé Branco escreveu a história de Coxim com as mãos sujas de argila e o peito cheio de pertencimento.
Homem de muitos nomes: José, Zé Branco, Zé Português, mas de uma só missão: servir à cultura com amor, poesia e verdade.
Não há rua que lhe caiba. Nem busto que lhe represente por inteiro. Sua existência é uma ode à resistência cultural, um lembrete de que a arte pode brotar no quintal de casa, que o barro pode virar eternidade, que o interior também é centro quando habitado por gigantes.
E assim, como as esculturas que cria, Zé Branco também se eternizou.
Não em bronze.
Não em pedra.
Mas em cada olhar que passa por Coxim e se pergunta: “Quem foi o homem que fez tudo isso acontecer?”
A resposta virá do vento.
Do rio.
E das paredes vivas do seu museu:
Foi Zé Branco. O português que virou Pantanal.
Ahhh Zé, Zé Branco, Zé Português, nós te agradecemos por seu amor por Coxim, você sem dúvida pertenceu a este lugar e sempre pertencerá.
