Saude
Quando o alívio vira prisão: os muitos rostos da dependência química
20 JUN 2025 • POR Renan Maia • 07h40Psicólogo Clínico | CRP 14/07127-2 | @renanmaia.psi
Desde os primórdios da humanidade as substâncias psicoativas acompanham o ser humano: rituais, comemorações, anestésicos... Com o passar do tempo e a industrialização, trouxe o consumo em larga escala e o ritual deu lugar ao recreativo. Por fim chegamos à estimulação, a propaganda e a normalização do consumo excessivo, mas não do adoecimento.
Há um momento em que o uso da substância deixa de ser escolha — e passa a ser necessidade. Mas ele raramente é percebido de imediato. Começa com o cigarro “só pra relaxar”, a cerveja “só pra descontrair”, a droga “só pra experimentar”. Começa leve, às vezes até bem-vinda, dentro de uma cultura que normaliza o uso de substâncias como parte da celebração, do lazer e, paradoxalmente, da sobrevivência emocional.
O que poucos entendem é que a dependência química não começa no copo, no pó ou no comprimido. Começa antes: no silêncio de uma dor não nomeada. Começa quando a substância se torna um recurso para lidar com aquilo que parece insuportável: a ansiedade, a solidão, os traumas, a falta de sentido.
A dependência química, na maioria das vezes, se aproveita de uma mente que sofre, que se fecha, que busca uma fuga ou anestésico rápido para um adoecimento psicológico/emocional. Por isso, raramente se apresenta sozinha, em suma é uma comorbidade que precisa ser tratada em conjunto com outras doenças mentais e psicológicas.
A dependência química é um transtorno psíquico e físico, com raízes profundas e múltiplas: fatores genéticos, influências sociais, outros adoecimentos psicológicos... Não se trata de falta de caráter, como ainda insistem alguns discursos moralistas. É um adoecimento que compromete a autonomia, fragiliza vínculos, desequilibra o corpo, invade a mente e muitas vezes destrói projetos de vida.
Seus impactos são devastadores. No organismo, há consequências neurológicas, hepáticas, cardiovasculares e hormonais. Na vida emocional, vemos o colapso da autoestima, da autoimagem e da capacidade de enfrentar a realidade. E nos vínculos afetivos, instala-se a quebra da confiança, o afastamento, a impotência. O sofrimento atinge não só quem usa, mas todos ao redor.
E como se tudo isso não bastasse, há o peso cruel do estigma. O dependente químico é muitas vezes visto como um “fracassado”, alguém “sem força de vontade” ou “sem vergonha”. Esse olhar condenatório não apenas desumaniza, mas também atrasa e dificulta o acesso ao tratamento
Há quem prefira o silêncio ao julgamento. E o silêncio, nesse caso, pode custar a vida — sim, o uso e abuso de substâncias psicoativas é um dos maiores fatores de risco para o suicídio.
Precisamos urgentemente mudar essa narrativa. Precisamos lembrar que ninguém escolhe viver em sofrimento. Que ninguém acorda desejando perder a autonomia sobre o próprio corpo. Que por trás de cada dependência há uma história, uma dor, uma tentativa — ainda que disfuncional — de sobreviver.
O tratamento existe e é possível. Envolve psicoterapia, suporte psiquiátrico e medicamentoso, grupos terapêuticos, acolhimento familiar e, sobretudo, tempo e escuta qualificada. Não se trata apenas de “parar de usar”, mas de reconstruir uma vida onde o uso já não seja necessário. Isso exige compreender os gatilhos, elaborar os afetos reprimidos, restaurar vínculos e resgatar a dignidade.
Mais do que disciplinar, é preciso cuidar. Mais do que exigir abstinência, é preciso oferecer presença. Como disse Carl Jung: “Nenhuma árvore cresce até o céu sem que suas raízes toquem o inferno.” A superação da dependência não é linear nem rápida. Mas é possível. E ela começa no momento em que paramos de apontar o dedo — e estendemos a mão.
Como ajudar alguém em situação de dependência química?
1. Pratique a escuta e a empatia
Frases como “é só parar”, “falta vontade” ou “isso é fraqueza” não ajudam. Evite julgamentos. Pergunte como a pessoa se sente. Escute mais do que oriente. O vínculo é o começo do cuidado.
2. Incentive o cuidado profissional
Apoio psicológico, psiquiátrico e comunitário (como grupos de apoio) são essenciais para o tratamento eficaz.
3. Reconheça que recaídas podem acontecer
Recuperar-se não é um processo linear. Recaídas não invalidam o progresso — aliás, podem ensinar e fazer parte dele.
4. Informe-se antes de agir
Conhecer os aspectos clínicos e emocionais da dependência evita reforçar estigmas ou atitudes contraproducentes. É importante que a família faça parte do processo e aprenda junto.
5. Cuide de si também
Familiares e amigos próximos muitas vezes se exaurem tentando ajudar. Busque rede de apoio também para você.
