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Entrevista

Ela Não Recuou: A Trajetória de uma Mulher na Polícia Civil

20 JUN 2025 • POR (Glenda Melo - Diário do Estado) • 07h35

Em um universo onde a coragem muitas vezes veste farda e o medo bate à porta todos os dias, ela escolheu não recuar. Há 15 anos, uma mulher decidiu enfrentar o que muitos evitam: o crime, a injustiça e o silêncio que cerca tantas vítimas. Ela não é apenas policial. É investigadora, é estrategista, é escudo e voz. Em um ambiente ainda dominado pelo peso do machismo e da desigualdade, ela fez do seu distintivo uma bandeira de resistência, competência e humanidade.
A cada ocorrência, uma história. A cada missão, um risco. Mas também a certeza de que sua presença no combate à criminalidade inspira outras mulheres a ocuparem o lugar que também é delas com firmeza, empatia e coragem.
Hoje, ela é símbolo da força feminina dentro da Polícia Civil. E nesta entrevista, vamos mergulhar em suas vivências, desafios, conquistas e na alma por trás da farda. Porque antes de ser policial, ela é mulher. E isso muda tudo.  Paula Maria Leite, Coxinense,41 anos, solteira, mãe de João Guilherme, Formada em Direito pela UNIDERP, 15 anos de polícia Civil é a nossa entrevistada da semana, vamos conhecer um pouco da sua rotina e vida na polícia     

Diário do Estado: Paula, você se lembra do momento exato em que decidiu seguir a carreira na Polícia Civil? O que te motivou?
Paula:
Foi durante a faculdade de Direito ano de 2003 enquanto fazia estágio na Primeira delegacia de Polícia de Coxim/MS, foi aí que tive contato com temas ligados à segurança pública e investigação, despertou em mim uma vontade profunda de atuar diretamente na proteção das pessoas e no combate à criminalidade. Pois eu sempre tive esse senso de justiça muito forte.

Diário do Estado: Em que ano você ingressou na Polícia Civil de Mato Grosso do Sul e como foi o processo até ser aprovada?
Paula:
O processo foi bastante desafiador, eu já era Policial Civil no Estado de Mato Grosso e fiz o concurso em Mato grosso do Sul no ano de 2013, exigiu estudo, disciplina e foco, durante as etapas, prova objetiva, psicotécnico, Avaliação médica o teste de aptidão física, uma dificuldade que tive foi na prova de salto em altura, mas bem superado com treinos e técnicas. Além do curso de formação na cidade de Campo Grande/MS que durou aproximadamente 05 meses.
 
Diário do Estado: Como foi o seu primeiro dia de trabalho como policial civil? Que lembrança mais te marcou?
 Paula:
Tenho várias lembranças, A primeira ocorrência como Policial Civil foi em Mato Grosso, um assalto a Fazenda modo cangaço. 

Diário do Estado: Quando entrou na corporação, imaginava que estaria onde está hoje?
Paula
: Sempre quis ser investigadora de Polícia, tanto é que, fiz duas academias de Polícia para o mesmo cargo. E descobri na Delegacia de Atendimento à Mulher, que faço diferença em trabalhar diariamente ajudando mulheres que enfrentam momentos delicados.

Diário do Estado: Quais foram os principais desafios que você enfrentou por ser mulher dentro da Polícia Civil?
Paula:
Muito disso já foi superado, mas sempre tem o peso de ter que provar que somos capazes de ocupar esse espaço como mulher. 

Diário do Estado: Em algum momento você sentiu que precisou provar mais a sua capacidade por ser mulher?
Paula:
Senti que precisava me esforçar, mas minha postura e meus resultados precisavam falar mais alto para provar que éramos iguais e, em algumas vezes, melhores. 

Diário do Estado: Já passou por situações de preconceito ou subestimação dentro da corporação? Como lidou com isso?
Paula:
Já, mas acho que a melhor forma é mostrar resultado. 

Diário do Estado: O que mudou ao longo dos anos no ambiente policial em relação à presença feminina?
Paula:
Hoje há mais respeito e presença feminina, em vários lugares não só na Polícia Civil. Ainda falta muito, mas vejo avanços na força feminina. Cada vez mais mulheres ocupam espaços que não eram ocupados por elas.


 
Diário do Estado:  Existe alguma ocorrência que marcou profundamente sua trajetória e que você nunca vai esquecer?
Paula:
Uma ocorrência que me marcou, foi uma vítima que estava sofrendo Violência Doméstica, isolada há mais de 60 dias no Pantanal, sendo necessário resgatá-la de avião.
 
Diário do Estado: Já vivenciou momentos de medo ou tensão extrema durante operações? Como é lidar com isso emocionalmente?
Paula:
Sim, porém somos preparados para todos os tipos de situações, para sermos focados e atentos o tempo todo, mantendo sempre o controle emocional que é primordial tanto nas operações como também nas ocorrências do Dia a dia. 

Diário do Estado: Como foi participar da sua primeira operação? Quais sentimentos você lembra de ter vivido naquele dia?
Paula:
Sempre gostei da parte operacional da Polícia, sentimento de adrenalina, responsabilidade, ser integrante de um trabalho útil e satisfatório. Os sentimentos vividos não só da primeira operação como todas as demais, sempre foi de muita gratidão, no pós ação com tudo ocorrendo com êxito e no durante/execução da operação o sentimento sempre foi de extrema alerta e cuidado comigo e os demais da equipe.

Diário do Estado: Há algum caso que te emociona até hoje ao lembrar, seja pela tragédia ou pelo desfecho positivo? 
Paula:
Difícil mensurar a satisfação que sinto em ajudar o próximo, em servir e proteger, infelizmente nem sempre ocorre finais felizes, tais como casos de estupros, abuso infantil entre outros. Mas o resgate da vítima no Pantanal foi emocionante, vez que também tinha criança envolvida e teve um final feliz.  

Diário do Estado: Como é conciliar a vida pessoal com uma profissão tão exigente como a sua?
Paula:
É uma balança. Tenho momentos de estar com meu filho, meu maior suporte, e priorizo qualidade nos momentos junto com ele com a minha família.

Diário do Estado: Ser mulher influencia na forma como você se relaciona com vítimas, especialmente em casos delicados como violência doméstica?
Paula:
Muitas vítimas sentem mais acolhidas por uma policial mulher, elas dizem que se sentem ouvidas com mais confiança, empatia e sensibilidade.

Diário do Estado: O que sua família representa na sua jornada como policial civil?
Paula:
Minha família é meu norte, meu porto seguro, sem eles não teria chegado até aqui.

Diário do Estado: Na sua opinião, o que ainda precisa mudar para que mais mulheres ingressem e permaneçam na carreira policial?
Paula:
Mais incentivo e motivação.

Diário do Estado: Como você enxerga a importância da representatividade feminina nas forças de segurança pública?
Paula:
Importantíssimo ver uma mulher policial civil ocupando cargos ajuda outras mulheres a acreditarem que podem e isso faz toda diferença.

Diário do Estado: Que mensagem você gostaria de deixar para meninas e mulheres que sonham em seguir carreira na Polícia Civil?
Paula:
Acreditem em vocês e invistam nos estudos, tenham fé em si mesmas e estejam dispostas a dar sempre o seu melhor.

Diário do Estado: O que você ainda deseja conquistar dentro da Polícia Civil?
Paula:
Pretendo me preparar para o Concurso de Delegada de Polícia 
    
Diário do Estado: Olhando para trás, qual conselho você daria à Paula que estava prestes a ingressar na carreira policial?
Paula:
Falaria para mim mesma: “Nunca perca sua essência e abrace cada desafio sempre com coragem, resiliência e jamais deixe de estudar.”

Diário do Estado: Paula, por favor deixe suas considerações finais 
Paula:
Quero agradecer você, Glenda, pelo convite e pela oportunidade que o Jornal Diário do Estado está me dando de representar as mulheres que integram a polícia Civil, obrigada pela oportunidade por me permitir dividir isso com vocês
Me sinto honrada por integrar uma corporação que valoriza e fortalece cada vez mais a presença das mulheres. 
Aqui na delegacia, em investigações complexas ou liderando equipes, acredito que nosso lugar é essencial. 
Trago em cada atendimento que faço, respeito, empatia e justiça, porque tenho convicção de que em muitos casos, nosso trabalho representa mudança na vida de alguém. Obrigada pela oportunidade e grande abraço.

 

Confira a entrevista na página: