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Orgulhos Coxinenses

Kurikaka e Fernando "Urso"

20 JUN 2025 • POR Diario do Estado • 07h30

Kurikaka: o violeiro de alma pantaneira

Nas margens doces do rio Taquari, em Coxim, nasceu em 21 de maio de 1971 um menino que logo cedo entendeu o som da natureza como melodia. Elinaldo Ferreira Campos, conhecido carinhosamente como Kurikaka, não precisou de brinquedos comuns seus primeiros presentes foram instrumentos musicais, talvez entregues pelo próprio espírito das águas, que intuía que dali nascia um compositor do povo.
Desde pequeno, brincava com palavras e notas, criando paródias que arrancavam sorrisos e reflexões. Em 1992, sua paixão pela terra coxinense se eternizou na música “Vida Vadia”, uma homenagem irreverente e sincera à sua cidade natal.
Suas músicas hoje estão eternizadas em 4 filmes e vários documentários.


Em 2004, o sonho ganhou voz no álbum “Kurikaka & Makako e os Dinossauros em Viagem pelo Mar dos Xaraés”, gravado pela gravadora Sapucaí. No mesmo ano, levou sua arte ao primeiro Festival América do Sul, em Corumbá, marcando presença como um verdadeiro embaixador da cultura sul-mato-grossense.
Sua música chegou longe: festivais em Bonito, Três Lagoas, Campo Grande, convites para programas de rádio e TV. Mas como tantos artistas brasileiros, Kurikaka também enfrentou o peso da realidade. O trabalho formal o afastou dos palcos por um tempo  mas jamais calou sua voz interior.
Hoje, aos 54 anos, o artista segue seu caminho com simplicidade e paixão, representando Coxim a terra do pé de cedro em encontros nacionais de violeiros, onde ecoa, em cada dedilhado, um pouco da alma pantaneira.
Kurikaka é daqueles que cantam para eternizar o que o tempo tenta apagar. E por isso, merece ser lembrado, celebrado e aplaudido por tudo que compôs, viveu e continua a inspirar. 

VIAGEM PELO MAR DOS XARAES

Canoa, noite, lua morena
Bem perto de Poconé 
Fogueira na areia de uma ilha 
Nos mares dos Xaraes 

Em rios q navego sem pressa 
Desde as chapadas de Cuiabá 
Tracei meu caminho pra Sã Matias 
Passando por Corumbá 
POR TRAS DE CADA PORTO 
UMA CIDADE VAMOS ENCONTRAR 
PORTO MURTINHO, NABILEQUE, LEQUE 
O MEU SANGUE E PAIAGUAS 

Vento que sopra o suor do meu rosto 
Também sussurra uma canção 
Ah que saudade de Vila Bela 
Camapuã e Perdigao 
Por dentro das matas vi bichos e feras 
Onças pintadas, sucuris 
Desvendei segredos, cidades perdidas 
Entre Xingu e Parecis 
Terra perdida, cade sua gente 
Cadê tupi, cade guarani 
Onde anda agora kadweus, bororos 
Cadê as tribos que viviam aqui 
Terra perdida, cade sua gente 
Cadê guato, ofaie, guaxi 
Wendwa, caiapo, chamacoco 
Cadê as tribos que viviam aqui? 

POR TRAS DE CADA PORTO 
UMA CIDADE VAMOS ENCONTRAR 
PORTO MURTINHO, NABILEQUE, LEQUE 
PANTANAL E O MEU LUGAR

Fernando “Urso” Alves
A Lenda Viva do Grafite em Coxim

Se você passar pelas ruas de Coxim e notar uma parede viva de cores, com araras, tuiuiús ou canoas pantaneiras pintadas com amor e detalhes, há grandes chances de estar diante da obra de Fernando da Silva Alves, o carinhosamente conhecido “Urso” — ou “Ursinho”, como chamam os mais próximos.
Há mais de 30 anos, ele espalha arte, história e identidade sul-mato-grossense pelos muros da cidade do Pé de Cedro. Nascido na periferia de São Paulo e iniciado ainda adolescente como cartazista de supermercado, foi no grafite que Ursinho encontrou sua verdadeira linguagem. Inspirado pela ascensão do hip hop nos anos 90, trocou tintas e traços com colegas que, encantados com seu primeiro desenho — um mago Merlin — o incentivaram a continuar.


De lá pra cá, sua arte percorreu o Brasil. Urso é andarilho de cultura: passou por muitas cidades, conheceu pessoas, absorveu vivências e misturou tudo com a essência pantaneira. Em cada mural, há mais que tinta — há memória, natureza. Tudo o que os olhos de Fernando conseguem captar transcritos em uma das formas de expressão mais lindas: A arte.
Uma de suas histórias mais inusitadas é digna de lenda urbana: espalhou-se certa vez que Ursinho havia falecido. Amigos lamentaram, homenagens foram feitas… até que, anos depois, alguém o viu — de bicicleta — pelas ruas de Coxim, vivo e rindo, totalmente o contrário do que se esperaria de um morto. “Pisquei os olhos pra ver se era verdade”, contou Ariel, seu amigo de juventude. “É uma lenda viva”.


Atualmente, Urso vive em Coxim, onde continua com suas pinturas, grafites e arte. Suas obras colorem desde casas de shows a lava-jatos, escolas e residências. Após enfrentar um AVC e as dificuldades da pandemia, ele renasceu — e hoje realiza outro sonho: ensinar. Recentemente, ministrou oficinas de grafite para internos de uma comunidade terapêutica da qual também participou.
Agora, com apoio de amigos e admiradores, Urso se prepara para concorrer a editais da Lei Paulo Gustavo, levando sua arte ainda mais longe. “É esperar pra ver…”, diz ele, com um sorriso tranquilo de quem já venceu muita coisa na vida.
Por sua resiliência, talento e contribuição para a cultura visual sul-mato-grossense, Fernando “Urso” Alves é, sem dúvida, um Orgulho Coxinense.

à população de Coxim e região. “É esperar pra ver..”, finaliza ele.