Orgulhos Coxinenses
Kurikaka e Fernando "Urso"
20 JUN 2025 • POR Diario do Estado • 07h30Kurikaka: o violeiro de alma pantaneira
Desde pequeno, brincava com palavras e notas, criando paródias que arrancavam sorrisos e reflexões. Em 1992, sua paixão pela terra coxinense se eternizou na música “Vida Vadia”, uma homenagem irreverente e sincera à sua cidade natal.
Suas músicas hoje estão eternizadas em 4 filmes e vários documentários.
Em 2004, o sonho ganhou voz no álbum “Kurikaka & Makako e os Dinossauros em Viagem pelo Mar dos Xaraés”, gravado pela gravadora Sapucaí. No mesmo ano, levou sua arte ao primeiro Festival América do Sul, em Corumbá, marcando presença como um verdadeiro embaixador da cultura sul-mato-grossense.
Sua música chegou longe: festivais em Bonito, Três Lagoas, Campo Grande, convites para programas de rádio e TV. Mas como tantos artistas brasileiros, Kurikaka também enfrentou o peso da realidade. O trabalho formal o afastou dos palcos por um tempo mas jamais calou sua voz interior.
Hoje, aos 54 anos, o artista segue seu caminho com simplicidade e paixão, representando Coxim a terra do pé de cedro em encontros nacionais de violeiros, onde ecoa, em cada dedilhado, um pouco da alma pantaneira.
Kurikaka é daqueles que cantam para eternizar o que o tempo tenta apagar. E por isso, merece ser lembrado, celebrado e aplaudido por tudo que compôs, viveu e continua a inspirar.
VIAGEM PELO MAR DOS XARAES
Canoa, noite, lua morena
Bem perto de Poconé
Fogueira na areia de uma ilha
Nos mares dos Xaraes
Em rios q navego sem pressa
Desde as chapadas de Cuiabá
Tracei meu caminho pra Sã Matias
Passando por Corumbá
POR TRAS DE CADA PORTO
UMA CIDADE VAMOS ENCONTRAR
PORTO MURTINHO, NABILEQUE, LEQUE
O MEU SANGUE E PAIAGUAS
Vento que sopra o suor do meu rosto
Também sussurra uma canção
Ah que saudade de Vila Bela
Camapuã e Perdigao
Por dentro das matas vi bichos e feras
Onças pintadas, sucuris
Desvendei segredos, cidades perdidas
Entre Xingu e Parecis
Terra perdida, cade sua gente
Cadê tupi, cade guarani
Onde anda agora kadweus, bororos
Cadê as tribos que viviam aqui
Terra perdida, cade sua gente
Cadê guato, ofaie, guaxi
Wendwa, caiapo, chamacoco
Cadê as tribos que viviam aqui?
POR TRAS DE CADA PORTO
UMA CIDADE VAMOS ENCONTRAR
PORTO MURTINHO, NABILEQUE, LEQUE
PANTANAL E O MEU LUGAR
Fernando “Urso” Alves
A Lenda Viva do Grafite em Coxim
Se você passar pelas ruas de Coxim e notar uma parede viva de cores, com araras, tuiuiús ou canoas pantaneiras pintadas com amor e detalhes, há grandes chances de estar diante da obra de Fernando da Silva Alves, o carinhosamente conhecido “Urso” — ou “Ursinho”, como chamam os mais próximos.
Há mais de 30 anos, ele espalha arte, história e identidade sul-mato-grossense pelos muros da cidade do Pé de Cedro. Nascido na periferia de São Paulo e iniciado ainda adolescente como cartazista de supermercado, foi no grafite que Ursinho encontrou sua verdadeira linguagem. Inspirado pela ascensão do hip hop nos anos 90, trocou tintas e traços com colegas que, encantados com seu primeiro desenho — um mago Merlin — o incentivaram a continuar.
De lá pra cá, sua arte percorreu o Brasil. Urso é andarilho de cultura: passou por muitas cidades, conheceu pessoas, absorveu vivências e misturou tudo com a essência pantaneira. Em cada mural, há mais que tinta — há memória, natureza. Tudo o que os olhos de Fernando conseguem captar transcritos em uma das formas de expressão mais lindas: A arte.
Uma de suas histórias mais inusitadas é digna de lenda urbana: espalhou-se certa vez que Ursinho havia falecido. Amigos lamentaram, homenagens foram feitas… até que, anos depois, alguém o viu — de bicicleta — pelas ruas de Coxim, vivo e rindo, totalmente o contrário do que se esperaria de um morto. “Pisquei os olhos pra ver se era verdade”, contou Ariel, seu amigo de juventude. “É uma lenda viva”.
Atualmente, Urso vive em Coxim, onde continua com suas pinturas, grafites e arte. Suas obras colorem desde casas de shows a lava-jatos, escolas e residências. Após enfrentar um AVC e as dificuldades da pandemia, ele renasceu — e hoje realiza outro sonho: ensinar. Recentemente, ministrou oficinas de grafite para internos de uma comunidade terapêutica da qual também participou.
Agora, com apoio de amigos e admiradores, Urso se prepara para concorrer a editais da Lei Paulo Gustavo, levando sua arte ainda mais longe. “É esperar pra ver…”, diz ele, com um sorriso tranquilo de quem já venceu muita coisa na vida.
Por sua resiliência, talento e contribuição para a cultura visual sul-mato-grossense, Fernando “Urso” Alves é, sem dúvida, um Orgulho Coxinense.
à população de Coxim e região. “É esperar pra ver..”, finaliza ele.
