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Saúde Mental

Espelho partido: quando o corpo que vemos não é o que temos

13 JUN 2025 • POR Renan Maia • 09h22

Psicólogo Clínico || CRP 14/07127-2 ||  @renanmaia.psi

Você já olhou no espelho e sentiu que havia algo “errado” com seu corpo — mesmo sem uma razão concreta? Já insistiu em dietas, treinos ou procedimentos porque nada parecia suficiente? Já pensou que, se mudasse “aquela parte”, finalmente estaria bem consigo? Para muitas pessoas, isso não é um pensamento passageiro, mas uma realidade angustiante que se repete todos os dias. Essa realidade tem nome: dismorfia corporal.


Há corpos que pesam. Não pelo número na balança, mas pelo peso do olhar sobre si mesmo. Pela dor de se enxergar no espelho e não reconhecer o que está ali refletido. Para quem vive com dismorfia corporal, a autoimagem se torna um território distorcido, angustiante e, muitas vezes, insuportável.
Dismorfia corporal não é vaidade em excesso, nem insegurança passageira. É um transtorno psicológico em que a pessoa desenvolve uma percepção distorcida e negativa sobre seu corpo — mesmo quando, objetivamente, não há nenhuma alteração significativa. O nariz sempre parece grande demais. A barriga, nunca está suficientemente reta. O rosto, sempre fora de simetria. O corpo vira alvo de uma autocrítica implacável e nenhuma mudança parece ser suficiente.
Nesses casos, os olhos já não enxergam o corpo real. Enxergam um reflexo adoecido pelo sofrimento psíquico. E quando a mente adoece, o corpo acompanha: surgem comportamentos compulsivos (provocar vômito, pesar frequentemente, jejuns...), dietas extremas, cirurgias em série, uso indiscriminado de medicamentos e substâncias para “modelar” o físico. A busca por um ideal impossível vira prisão.


A sociedade em que vivemos potencializa esse adoecimento. O padrão de beleza atual é, muitas vezes, filtrado, editado, inatingível. Redes sociais que vendem corpos esculpidos por edições e cirurgias criam a ilusão de que o “normal” é ser escultural. Perfis editados, filtros sutis que afinam, esticam, corrigem. As redes sociais, ao invés de espelhos, tornaram-se vitrines de corpos idealizados — e, muitas vezes, irreais. A comparação constante, o culto ao desempenho estético e a cobrança silenciosa para “se cuidar” — muitas vezes camuflando exigência estética — tornam-se gatilhos para um sofrimento que, por vezes, é vivido em silêncio.
Como sempre nos lembra o psicanalista Jacques Lacan: “o corpo é o primeiro espelho do eu”. E quando esse espelho se fragmenta, a identidade também se fere. Por isso, tratar a dismorfia corporal é mais do que ajudar alguém a aceitar sua aparência — é resgatar a relação dessa pessoa com sua própria existência.
O tratamento deve ser acolhedor e multidisciplinar: psicoterapia é fundamental, preferencialmente com um profissional que compreenda os aspectos subjetivos da imagem corporal. Além disso, em alguns casos, o acompanhamento psiquiátrico também pode ser necessário; assim como acompanhamento nutricional e suporte familiar. E mais do que tudo: é preciso criar redes de apoio, ambientes que promovam o cuidado integral e não apenas a estética. O corpo não é um inimigo a ser vencido, é morada. Cuidar da saúde mental é também reaprender a habitá-lo com respeito.
 

Dicas práticas para cultivar uma relação mais saudável com o próprio corpo:

1. Filtre o que você vê nas redes sociais
Siga pessoas que compartilham vivências reais, não apenas corpos “perfeitos”. Questione padrões irreais ou perfeitinhos demais: busque experiências mais humanas e próximas do que vivenciamos no dia-a-dia.

2. Evite comentários sobre o corpo alheio (e o seu)
Comentários aparentemente inofensivos sobre aparência podem ferir mais do que se imagina. Além disso, Aquilo que cobramos do outro em algum momento alimentará nossa autocobrança. 

3. Cuide-se por amor, não por punição
Pratique atividade física e alimente-se bem porque seu corpo merece cuidado — não castigo. Trabalhe com metas focadas na regularidade, no prazer e na saúde — evite metas estéticas.

4. Fale sobre o que sente
Conversar com alguém de confiança ou buscar ajuda profissional é o passo mais importante.

5. Lembre-se: seu valor não está no espelho
A aparência é só uma das muitas dimensões que compõem quem você é.