Logo Diário do Estado

Orgulhos Coxinenses

Zé Tombado: o guardião do caldo, da música e da alma coxinense

6 JUN 2025 • POR (Glenda Melo - Diário do Estado) • 08h59
  Divulgação

Há mais de três décadas, quando a noite se insinua silenciosa sobre o coração de Coxim, uma chama se acende não apenas no fogão a lenha que crepita no canto de um tradicional bar, mas também na alma de uma cidade que aprendeu a encontrar, no simples e no generoso, um pedaço de si mesma.
Ali, na região central do município, entre ruas que guardam histórias do ciclo do ouro, dos antigos tropeiros e das batalhas que marcaram a formação do Estado, José Alves de Oliveira — ou, como todos carinhosamente o conhecem, “Zé Tombado” — mantém viva uma das tradições mais singelas e, ao mesmo tempo, mais potentes que essa terra conhece: o preparo do caldo servido gratuitamente às quartas e sextas-feiras, um ritual que, há mais de 30 anos, aquece corpos e almas.
Coxim é terra de águas generosas, com seus rios Coxim, Taquari e Jauru, que, desde os tempos coloniais, foram rotas de navegadores, bandeirantes e comerciantes. É também um reduto da cultura pantaneira, marcada pela rusticidade, pela hospitalidade e pela música que eterniza o amor pela natureza e pelos costumes locais. E é nesse caldo cultural, forjado ao longo dos séculos, que o bar de Zé Tombado se insere, como mais uma vertente viva da tradição coxinense.
Zé Tombado carrega no rosto o traço dos que aprenderam a envelhecer com serenidade e, nas mãos, a força dos que, silenciosamente, constroem cultura. Às 13 horas, quando a lenha começa a estalar, ele dá início ao preparo do caldo de feijão branco, reforçado com carne, ossinho e legumes, que vai ganhando consistência, aroma e alma, até alcançar o ponto ideal, servido sempre a partir das 21h30.


O que antes era apenas um gesto para agradar amigos íntimos se transformou, com o passar do tempo, em um verdadeiro reduto cultural de Coxim. O bar de Zé Tombado transcendeu as paredes de tijolos e madeira, transformando-se em um ponto de encontro obrigatório, onde se respira a essência da cidade.
Hoje, é impossível vir a Coxim e não visitar o bar de Zé Tombado. O lugar se consolidou como um símbolo da cultura coxinense, não apenas pelo caldo saboroso que exala do fogão a lenha, mas, principalmente, pelo que ele representa: música de raiz, conversas demoradas, amizades sinceras e um clima familiar que acolhe a todos, sem distinção. Ali, sob a sombra de árvores antigas e ao som de modas de viola, revive-se um pedaço da tradição pantaneira, onde o homem e a natureza se fundem numa mesma identidade.
Frequentado por toda a cidade, o bar é uma síntese democrática: da autoridade ao boêmio, do caminhoneiro ao poeta, do jovem ao mais velho, todos se reúnem em torno da mesma mesa invisível, sob o mesmo teto de estrelas, comungando de uma tradição que não pede nada em troca — apenas respeito, presença e um prato limpo ao final.
A generosidade de Zé Tombado é um traço que o distingue: apesar de não cobrar pelo caldo e viver da venda de bebidas, mantém apenas uma caixinha de colaboração, para quem quiser, espontaneamente, contribuir. Muitos já o aconselharam a cobrar pela refeição, mas ele, firme, repete o que aprendeu com a própria vida: “Nunca cobrei, e não vai ser agora que vou cobrar.”


O apelido, esse, nasceu de uma dessas passagens que a cidade transforma em anedota. Depois de uma noite animada, Zé estacionou seu Opala na antiga feira de Coxim, comeu um espetinho e, vencido pelo sono, adormeceu no banco do carro. Os amigos, que não deixavam passar uma boa oportunidade de brincar, apelidaram-no de “Zé Tombado” — um nome que virou sobrenome afetivo e que, hoje, é sinônimo não apenas de um homem, mas de um modo de viver.
Mais do que um bar, o espaço de Zé Tombado é um patrimônio imaterial de Coxim. É um lugar onde a cultura se preserva e se atualiza, onde os laços comunitários se estreitam e onde o tempo parece correr diferente — com menos pressa, com mais sentido.
Numa cidade cuja história remonta aos idos do século XVIII, com a instalação de fazendas e fortificações militares, Coxim carrega em si a herança das bandeiras paulistas e a resistência dos povos originários, cuja presença moldou a paisagem física e cultural da região. O bar de Zé Tombado, inserido nesse contexto, representa uma continuidade dessa tradição de hospitalidade e resistência, marcada pela solidariedade, pela celebração da comida como um bem coletivo e pela manutenção das relações comunitárias.
Em tempos de modernização e urbanização acelerada, o bar se mantém como um dos poucos espaços onde ainda se pode experimentar, de maneira autêntica, o calor humano e o sentido comunitário que são marcas profundas da cultura do interior brasileiro.


Numa época marcada pela velocidade das redes, pela frieza dos algoritmos e pelo isolamento urbano, o bar de Zé Tombado permanece como um refúgio caloroso, onde o que vale não é o quanto se tem, mas o quanto se compartilha. A lenha que queima no fogão é a mesma que mantém acesa a chama da tradição, e o caldo que se serve é também memória líquida de uma cidade inteira, que ali se reconhece e se celebra.
E assim, semana após semana, a cidade segue se reunindo em torno do fogão e do homem que, com sua simplicidade, transformou o cotidiano em lenda. Para os que chegam, há sempre um prato de caldo quente, um sorriso aberto, uma música que embala e uma certeza: em Coxim, o bar de Zé Tombado é mais que um destino — é um ritual de pertencimento.
Que siga, por muitos anos ainda, tombado na memória da cidade — não como quem caiu, mas como quem, há muito tempo, ergueu um dos pilares mais autênticos da cultura e da história coxinense.
Salve, Zé Tombado!