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Cultura

Orgulhos Coxinenses: Ivanildo José e Noêmia Serrou Camy

30 MAI 2025 • POR Gessica Oliveira • 09h26

Ivanildo José da Silva - Ivan

Há trajetórias que se constroem silenciosamente, pedra sobre pedra, até que, um dia, se tornam marcos incontornáveis de uma comunidade. A vida de Ivanildo José da Silva é uma dessas histórias, onde o amor pelas artes, pela cultura e pela educação se entrelaçam numa tessitura que não se desfaz.
Natural de Coxim, cidade do interior de Mato Grosso do Sul, Ivanildo percorreu os corredores da Escola Pedro Mendes Fontoura desde a infância até o fim da adolescência, onde, entre livros e sonhos, começou a germinar a vocação que o levaria a se tornar uma das mais destacadas figuras no campo das artes cênicas e dos estudos literários da região.
Graduou-se em Letras pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, onde deu início à sua formação acadêmica sólida e multifacetada. Não se limitou às paredes da sala de aula: participou ativamente de projetos de pesquisa, ensino e extensão, que o prepararam para atuar com excelência como professor e pesquisador. Muito antes do diploma, sua identidade profissional já se anunciava na prática cotidiana da educação e da cultura.
Entre 2009 e 2011, assumiu a presidência da Fundação Professora Clarice Rondon dos Santos (FUNRONDON), uma instituição voltada para o fomento das manifestações culturais em diversas linguagens: teatro, música, dança, cinema, pintura, escultura. Sua gestão não apenas fortaleceu esses setores, mas deixou um legado de projetos e ações que marcaram a cena cultural de Coxim. Simultaneamente, sua participação no Conselho Municipal de Cultura reafirmou seu compromisso político e social com a arte como um direito e uma necessidade.


Mas é no teatro que Ivanildo se revela por completo: como diretor da Escola Estadual Pedro Mendes Fontoura, entre 2012 e 2014, conduziu montagens memoráveis, como Pluft, o fantasminha, de Maria Clara Machado, e As alegres senhoras de Herculânea, de Wagner Rondora, uma ode às memórias e lendas de sua cidade natal.
O compromisso com o palco expandiu-se para a pesquisa. Em 2014, publicou Pelo buraco da fechadura: identidade cultural em O beijo no asfalto, de Nelson Rodrigues, uma obra que nasce de sua dissertação de mestrado e que oferece uma leitura aguda da dramaturgia rodriguiana, reconhecida como um dos pilares do teatro brasileiro moderno. Não por acaso, suas investigações e reflexões o levaram a congressos e simpósios dentro e fora do país Brasil, Argentina, Uruguai onde difundiu o legado de Nelson Rodrigues, Plínio Marcos e Henrik Ibsen, nomes que também moldaram sua própria trajetória intelectual.
O percurso acadêmico prosseguiu com o doutorado em Letras pela UNESP, em São José do Rio Preto, onde entre 2017 e 2019 aprofundou seus estudos dramatúrgicos, debruçando-se sobre clássicos como Casa de Bonecas, de Ibsen, e A Dança Final, de Plínio Marcos. O rigor e a paixão pelo teatro transformaram-no em referência nos estudos de literatura dramática.


Mas Ivanildo é, acima de tudo, um homem de ação. Desde 1997, integra o Grupo Teatral Coxinense, coletivo com o qual criou e apresentou espetáculos que celebram e questionam a cultura sul-mato-grossense. Entre esses trabalhos, destaca-se  Na rodagem dos Tocos, também de Wagner Rondora, que aborda o processo de ocupação do Vale do Taquari e que foi premiado no Festival Sul-Mato-Grossense de Teatro, evidenciando a força criativa e crítica do grupo.
Na UFMS, além de docente, coordenou o curso de Letras entre 2020 e 2023, liderando importantes projetos que unem ensino, pesquisa e extensão. Projetos como Melhor Idade em Cena: o teatro na promoção da saúde do idoso e Teatro em Rede: conexões culturais em Literatura dramática mostram sua crença inabalável no teatro como ferramenta de inclusão e transformação social. A experiência também se estendeu ao Inverteatos Cia Teatral, iniciativa voltada para a formação de novos artistas e para a difusão do teatro junto à comunidade de Coxim e região.


Entre as curiosidades de sua trajetória, consta a aprovação em concurso para o Instituto Federal de Mato Grosso do Sul (IFMS), campus de Aquidauana, em 2014. Contudo, optou por permanecer na UFMS, onde segue sua missão acadêmica e artística, deixando sua marca indelével na instituição.
Ivanildo também é membro ativo do Grupo de Pesquisa Ícaro (CNPq) e do GT Dramaturgia e Teatro da ANPOLL, reafirmando seu papel como intelectual engajado na cena nacional de estudos literários e teatrais.
Fora dos palcos e das salas de aula, cultiva outro espaço de desafio e superação: o crossfit, prática à qual se dedica com o mesmo entusiasmo e disciplina que marcam todas as suas empreitadas.
A trajetória de Ivanildo José da Silva é um testemunho vivo de que a arte, a educação e a cultura podem e devem caminhar juntas. Mais do que um professor, pesquisador ou artista, ele é um agente de transformação, alguém que soube conjugar talento e compromisso para fazer do teatro, da palavra e da ação instrumentos poderosos de mudança social e afirmação cultural. Por tudo isso e toda sua dedicação ao teatro e suas extensões você é um orgulhoso Coxinense Ivanildo José, ou simplesmente Ivan.

 

 

 

Noêmia Serrou Camy de Araújo

Há vidas que, mesmo após o silêncio derradeiro, seguem vibrando na memória das cidades, como rios que jamais cessam sua correnteza. Assim é Noêmia Serrou Camy de Araújo mulher de alma generosa, presença delicada e força ancestral, que moldou sua existência com a mesma firmeza e beleza com que o seu avô, Jean Serrou Camy, moldava a madeira das igrejas e casarões.
Nascida em 14 de maio de 1931, no berço sólido e simbólico da Fazenda São Pedro, onde histórias e destinos se entrelaçam como galhos de uma mesma árvore frondosa, Noêmia foi a sexta flor entre doze irmãos. Desde cedo, aprendeu a ser raiz e abrigo, sustentáculo de uma família vasta, descendente de pioneiros que desbravaram terras e corações.
Casou-se com Ênnio de Araújo e, juntos, semearam novas vidas, ampliando a árvore genealógica que perfuma e enriquece a história de Coxim. Mas foi além da vida doméstica que Noêmia desenhou sua marca: com mãos habilidosas e espírito incansável, atuou como professora, tabeliã, conselheira e amiga, tornando-se, para muitos, um porto seguro onde repousar a confiança.


Sua casa era um espaço de acolhida e calor, onde, nas férias escolares ou nas festividades como a Festa do Divino, a alegria se espalhava entre risos e panelas fumegantes, costurando memórias em bordados invisíveis, tecidos com afeto. Noêmia sabia das coisas simples e essenciais: cozinhar, ouvir, aconselhar, contar histórias, trançar cabelos e destinos.
Católica fervorosa, foi ponte entre a tradição e a renovação, trazendo a espiritualidade carismática para sua cidade natal, sem jamais perder a doçura e a firmeza. Ao lado da devoção, sempre esteve o compromisso com os mais humildes  quem precisasse, encontrava nela uma mão estendida, uma palavra que aquecia.
Na praça, nos bailes, nos aniversários ou nos encontros à beira do rio, sua presença era luz discreta, mas indispensável. E mesmo na lida do cartório, onde a precisão era regra, sabia deixar impressa a ternura: ensinou datilografia e caligrafia, como quem ensina não apenas um ofício, mas um modo de ser.


Partiu aos 64 anos, no dia 26 de outubro de 1995, mas não partiu de fato: permanece onde sempre esteve, na alma da cidade, agora eternizada na praça que leva seu nome, margeando o Taquari, entre as ruas que guardam a memória dos que, como ela, edificaram Coxim com gestos silenciosos e corajosos.
Ali, na Praça Noêmia Serrou Camy de Araújo que o povo carinhosamente chama de Praça do Flutuante , sua história segue viva, misturada à brisa que sopra sobre as águas, aos passos apressados ou contemplativos de quem ali passa, talvez sem saber que pisa sobre solo sagrado, regado por uma vida que soube ser semente, tronco e flor. Noêmia é, e sempre será, mais que um nome gravado numa placa: é poesia entranhada nas raízes de uma cidade, é memória que canta no coração de quem ama Coxim.