Saúde Mental
A Roleta Invisível: Jogos de Azar e o Preço da Ilusão
16 MAI 2025 • POR Renan Maia • 09h39Por Renan Maia – Psicólogo Clínico | CRP 14/07127-2
@renanmaia.psi
A promessa é sedutora: com um clique, o risco vira vitória. Com sorte, a conta enche, a vida muda, o sonho se realiza. Essa é a narrativa vendida pelas casas de apostas online — um universo que cresce silenciosamente entre telas, transmissões esportivas e influenciadores carismáticos. Mas por trás das cores vibrantes e da aparente facilidade de ganho, há um jogo bem mais profundo: o que se trava na mente de quem aposta, perde e insiste em apostar de novo.
A chamada “CPI das bets”, que vem ganhando destaque nos noticiários, tem trazido à tona o debate necessário sobre a regulação desses jogos. Porém, o que ainda se fala pouco — ou se escuta menos — é sobre o impacto psicológico desse fenômeno. A ludopatia, nome clínico do transtorno do jogo compulsivo, é uma realidade silenciosa e devastadora.
Socialmente, o jogo de azar se disfarça de entretenimento, de passatempo moderno. Mas para muitos, especialmente os mais vulneráveis economicamente, ele se torna um falso atalho para a ascensão financeira — e uma armadilha emocional. Quando o jogo deixa de ser uma escolha e passa a ser uma necessidade, estamos diante de um problema de saúde mental.
Do ponto de vista psicológico, os mecanismos envolvidos nos jogos são sofisticados. O sistema de recompensa cerebral, ativado pelo ganho inesperado, libera dopamina — o mesmo neurotransmissor associado ao prazer, ao vício e à motivação. Mesmo quando se perde, o cérebro espera pela próxima chance de “virada”. E assim se instala um ciclo de esperança, frustração e repetição, muitas vezes impossível de romper sem ajuda profissional.
As consequências são amplas: ansiedade, depressão, endividamento, isolamento, perda de vínculos familiares, baixa autoestima e, em casos extremos, ideação suicida. E o mais preocupante: há um silêncio em torno disso. Uma vergonha que impede o pedido de socorro. Afinal, vivemos em uma sociedade que normaliza o risco, glamouriza o lucro fácil e minimiza o sofrimento psíquico.
Mas há saída. E ela começa pelo reconhecimento do problema.
O tratamento da ludopatia pode envolver acompanhamento psicológico regular, abordagens cognitivas e comportamentais, grupos de apoio — como os Jogadores Anônimos (JA) — e, em alguns casos, intervenção psiquiátrica. O primeiro passo é sempre buscar ajuda profissional, de forma sigilosa e sem julgamentos. Ninguém precisa lidar sozinho com uma dor tão complexa.
É fundamental que a família e os amigos estejam atentos, oferecendo apoio sem condenação. Muitas vezes, o acolhimento é o que abre a porta para a mudança. Além disso, políticas públicas de prevenção e educação digital são ferramentas essenciais para proteger, sobretudo, os mais jovens.
Falar sobre ludopatia é mais do que um alerta: é um gesto de cuidado coletivo. Precisamos refletir sobre os limites entre lazer e adoecimento, sobre a responsabilidade ética das plataformas e sobre a urgência de apoio à saúde mental.
Se você conhece alguém que não consegue mais parar de apostar, não o julgue. O vício em jogos não é falta de força de vontade — é um transtorno sério que precisa de atenção, acolhimento e tratamento.
Que esta coluna siga sendo um espaço para romper silêncios e lançar luz sobre os sofrimentos que nem sempre cabem nas manchetes.
