Logo Diário do Estado

Entrevista da Semana

Onde a Dor Encontra Acolhimento: Coordenadora do CAPS de Coxim em uma entrevista emocionante

Mesmo nos dias mais escuros, é possível encontrar luz e, às vezes, tudo começa com um primeiro passo: o de pedir ajuda." - Célia Regina - Coordenadora do CAPS Coxim

18 ABR 2025 • POR Glenda Melo / Diário do Estado • 16h37
  glenda melo

Nossa entrevistada da semana é a coordenadora de um dos órgãos mais importantes quando se trata de saúde mental. Célia Regina de Almeida Silva, 57 anos, casada, formada em Assistência Social, pós-graduada em Gestão de Saúde pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, está há 13 anos à frente do CAPS de Coxim. Vamos conversar com ela um pouco sobre os serviços oferecidos, as conquistas e desafios neste lugar tão importante e acolhedor para as pessoas que precisam.

Diário do Estado: Desde já agradeço, Célia, por me receber para contar um pouco do trabalho brilhante e heróico que o CAPS tem feito em Coxim. Gostaria que você falasse um pouco, para quem não conhece, o que é o CAPS?
Célia: CAPS é a sigla para Centro de Atenção Psicossocial, um serviço de saúde mental comunitário e gratuito que oferece tratamento e reinserção social.

Diário do Estado: Quais pessoas são atendidas no CAPS, Célia?
Célia
: Os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) atendem pessoas com sofrimento mental grave, incluindo transtornos mentais persistentes e uso de drogas.
São atendidos:

• Crianças e adolescentes com sofrimento psíquico intenso
• Pessoas com transtornos mentais graves e persistentes
• Pessoas com sofrimento ou transtorno mental em geral
• Pessoas com necessidades decorrentes do uso de crack, álcool e outras drogas
• Pessoas com transtornos mentais graves e persistentes, inclusive pelo uso de drogas que alteram a mente e o humor

Diário do Estado: Como essas pessoas chegam ao CAPS, Célia?
Célia
: As pessoas podem chegar aos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) por demanda espontânea, encaminhamento ou em situações de emergência.
Por demanda espontânea, as pessoas comparecem diretamente ao CAPS, sem necessidade de agendamento prévio.
Por encaminhamento, a pessoa é encaminhada por uma unidade de atenção primária ou especializada, como uma Unidade Básica de Saúde (UBS) ou uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA).
A pessoa também pode ser encaminhada por outros dispositivos da rede de saúde ou da rede intersetorial, como Assistência Social, Educação ou Justiça.

Diário do Estado: E quando essa pessoa chega ao CAPS, qual é o primeiro atendimento feito pela equipe?
Célia
: O acolhimento no Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) é o primeiro atendimento. É uma intervenção que acolhe a pessoa no momento em que ela precisa, sem agendamento prévio. O acolhimento é a porta de entrada para o tratamento no CAPS. Ele é realizado pelos profissionais de nível superior: terapeuta ocupacional, enfermeira e psicólogo.

Diário do Estado: Por quais profissionais a pessoa é atendida após o acolhimento?
Célia
: Pela nossa médica especialista em psiquiatria, Dra. Ane. E, caso ela sinta necessidade de acompanhamento psicológico, faz o encaminhamento para o nosso Dr. Renan Maia. Os dois então dão sequência no acompanhamento.

Diário do Estado: Quantos veículos o CAPS possui para atender os usuários?
Célia
: Um veículo, Glenda, que infelizmente é insuficiente para atender à nossa demanda.

Diário do Estado: Falando em demanda, Célia, você tem os números de atendimentos feitos por mês por vocês?
Célia: Sim, atendemos em média 972 pessoas por mês. É um fluxo muito grande de pessoas com transtornos em Coxim.

Diário do Estado: Como vocês fazem para atender essa demanda tão grande de 970 pessoas por mês com apenas uma psiquiatra e um psicólogo?
Célia
: Olha, Glenda, acho que o principal nessa sua pergunta, a resposta seja o amor. O amor desses profissionais por essas pessoas tão frágeis que entram aqui, todas destruídas pela dor, sofrimento, cansaço de uma vida cheia de dificuldades, abandonos, traumas... É só muito amor pela profissão, sobretudo da Dra. Ane e do Dr. Renan, pois são eles que ficam com a maior demanda. E jamais nenhum paciente foi atendido por eles de maneira ríspida ou sem qualidade no atendimento. Eles são heróis, incansáveis na missão de cuidar do próximo com amor e respeito.

Diário do Estado: Quais os tratamentos oferecidos no CAPS de Coxim?
Célia
: Os pacientes que fazem tratamento no CAPS recebem os seguintes tratamentos:
• Auriculoterapia, que é uma técnica de medicina alternativa que estimula pontos específicos da orelha para tratar problemas físicos, mentais e emocionais. É uma especialidade da acupuntura e parte da Medicina Tradicional Chinesa.
• Cromoterapia, uma terapia complementar que usa cores para promover o equilíbrio físico, emocional e energético. A prática baseia-se na crença de que cada cor tem uma vibração específica que influencia o corpo.
• Oferecemos também psicoterapia em grupo e individual, oficinas terapêuticas, temos as PICS (Práticas Integrativas e Complementares), que são modalidades novas no SUS.
• Temos também as oficinas com argila.

Diário do Estado: E quais as maiores buscas por atendimento?
Célia
: Depressão, ansiedade e transtorno de bipolaridade são os de maior demanda. Ultimamente, têm aparecido casos de ansiedade devido aos jogos de aposta, como “tigrinho” e outros mais. As pessoas chegam até aqui aparentemente com crise de ansiedade e depressão, e quando os médicos começam o tratamento e investigação, muitos pacientes falam que estão endividados por conta desses jogos. Muitos deles desencadeiam ansiedade se ficarem muito tempo sem jogar, é como se fosse uma abstinência por drogas e álcool. O jogo também acaba se tornando um vício, se em excesso e sem controle e limites.

Diário do Estado: Para você, o que precisa ser feito para uma melhoria como um todo nos atendimentos desses usuários?
Célia
: Que a atenção primária seja vista com mais carinho, Glenda. O fortalecimento da atenção primária é essencial para que o CAPS não sofra com essa sobrecarga. Em conversa recente que tive com a secretária municipal de Saúde de Coxim, Fernanda Berigo, coloquei para ela a necessidade da reabertura do ambulatório psiquiátrico que funcionava na policlínica e infelizmente foi fechado. Também existe a necessidade da criação de uma ala no Hospital Regional de Coxim para pessoas com transtornos e problemas mentais. Nós, do CAPS, não temos estrutura para atender essas pessoas, pois muitas precisam tomar medicação na veia e serem internadas em caso de um surto. Então, como só temos o Hospital Regional, é para lá que encaminhamos as pessoas que precisam. Não podemos deixar essas pessoas na rua em surto ou em crise. Elas são pessoas, vidas, têm direito a um atendimento humano e respeitoso em qualquer lugar. E, caso alguém veja alguém nas ruas em surto ou crise, é só ligar para o SAMU (192) ou para o Bombeiro (193). O que não podemos fazer é banalizar a importância de uma vida.

Diário do Estado: A depressão e os casos de suicídio recentes na cidade continuam sendo uma preocupação para vocês aqui no CAPS?
Célia
: Sim, a depressão e os casos de suicídio continuam sendo uma grande preocupação para nós aqui no CAPS de Coxim. Temos observado que esses transtornos vêm afetando pessoas de diferentes faixas etárias, e isso reforça a importância de mantermos um olhar atento e acolhedor à saúde mental da população. Nosso trabalho é voltado justamente para oferecer suporte psicológico, acompanhamento psiquiátrico e atividades terapêuticas que promovam a recuperação e o fortalecimento emocional dos nossos usuários. Também buscamos ampliar o diálogo com a comunidade para quebrar o estigma em torno da saúde mental, incentivando que as pessoas procurem ajuda o quanto antes. É fundamental que todos entendam que depressão tem tratamento e que a vida pode, sim, voltar a ter sentido.

Diário do Estado: Com o uso excessivo de celular e redes sociais, os números de atendimentos aumentaram aqui no CAPS?
Célia
: Sim, temos percebido um aumento na demanda por atendimentos, e o uso excessivo de celulares e redes sociais tem sido, sim, um dos fatores que influenciam esse cenário. Muitos pacientes, principalmente os mais jovens, chegam até nós apresentando sintomas como ansiedade, baixa autoestima, distúrbios do sono, dificuldade de concentração e até quadros depressivos, que muitas vezes estão ligados ao uso intenso dessas plataformas. A comparação constante com padrões irreais, a exposição a conteúdos negativos e a dificuldade de estabelecer relações presenciais saudáveis podem agravar o sofrimento psíquico. No CAPS, trabalhamos para acolher essas pessoas e ajudá-las a desenvolver um uso mais consciente da tecnologia, além de fortalecer vínculos humanos e estratégias de enfrentamento mais saudáveis.

Diário do Estado: Pela rotina que você vê todos os dias aqui, você acredita que os transtornos mentais sejam o mal do século?
Célia
: Sim, pela rotina que vivenciamos diariamente aqui no CAPS, é possível dizer que os transtornos mentais estão entre os grandes males do século. A gente percebe um aumento significativo nos casos de ansiedade, depressão, síndrome do pânico, entre outros quadros que afetam profundamente a qualidade de vida das pessoas. Vivemos em um mundo acelerado, com muitas pressões sociais, emocionais e econômicas, e isso tem refletido diretamente na saúde mental da população. Além disso, ainda enfrentamos muito preconceito e desinformação sobre esses transtornos, o que muitas vezes atrasa o diagnóstico e o início do tratamento. Por isso, reforçamos sempre a importância de falar sobre saúde mental com responsabilidade, acolhimento e acesso a serviços como o CAPS, que está aqui justamente para cuidar e oferecer suporte a quem precisa.

Diário do Estado: O que você quer dizer para as pessoas que estão passando por essas dores interiores em silêncio?
Célia
: Eu diria que, por mais difícil que pareça agora, você não está sozinho. A dor que você sente é real e merece ser ouvida, acolhida e tratada com respeito. A depressão, a ansiedade ou qualquer outro sofrimento emocional não são fraquezas, são sinais de que algo dentro de você precisa de cuidado. Procure ajuda, fale com alguém de confiança e, se possível, busque um serviço de saúde mental como o CAPS. Existe tratamento, existe caminho, e existe vida depois da dor. Mesmo nos dias mais escuros, é possível encontrar luz e, às vezes, tudo começa com um primeiro passo: o de pedir ajuda.

Diário do Estado: Suas considerações finais, por favor, Célia.
Célia
: Gostaria de agradecer ao Jornal Diário do Estado e a você, Glenda, pelo espaço dedicado à saúde mental e por nos permitir falar sobre o trabalho do CAPS. Essa visibilidade é fundamental para que a população conheça os serviços que estão à disposição e compreenda que cuidar da mente é tão importante quanto cuidar do corpo. O CAPS é um espaço de acolhimento, escuta e reconstrução, onde cada pessoa é tratada com dignidade e respeito. Reforçamos que buscar ajuda é um ato de coragem e que estamos aqui para caminhar ao lado de quem precisa. Falar sobre saúde mental salva vidas, e esse tipo de diálogo é essencial para quebrarmos estigmas e construirmos uma sociedade mais humana e consciente. Não tenha vergonha, estamos aqui para ajudar.
Para entrar em contato com o CAPS de Coxim, o telefone é (67) 3291-4052 e o endereço é Rua Afonso da Costa Campos, bairro Senhor Divino. (Glenda Melo - Diário do Estado)