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A compaixão tem poder. E o maior poder que ela tem é o de salvar vidas, conheça a história de Manoel

9 AGO 2024 • POR (Glenda Melo/ Diário do Estado) • 09h55
  Arquivo pessoal

Nosso entrevistado da semana é uma pessoa que sempre em sua vida teve o desejo de ajudar as pessoas, criado em uma família humilde mas repleta de amor e valores Manoel Júnior desde muito jovem sentiu a vontade de fazer a diferença na sociedade, mas o que ele não sabia é que em cada chamado estaria salvando vidas. Conheça um pouco da história desse cara que escolheu fazer a diferença entre a vida e a morte das pessoas.

Manoel Virgílio da Conceição, 39 anos, Coxinense, Casado com Aline Silva Loiola há 10 anos, são pais de 2 cachorros.
• Instrutor de APH em Combate 
• Inst. Atendimento pré Hospitalar
• Inst. Resgate Veicular
• Inst. Resgate em Espaço Confinado
• Inst. Resgate Vertical 
• Téc. Segurança do trabalho TST
• Proprietário Da G&M Consultoria em primeiros socorros

Diário do Estado: Manoel, para começar gostaria que você contasse um pouco da sua vida para nossos leitores te conhecerem um pouco
Manoel Júnior:
Glenda, sou nascido em Coxim, fui criado brincando pelas ruas da nossa cidade, tive uma infância muito saudável, sempre fui atraído por esportes, fui uma criança muito agitada e curiosa, tive uma infância saudável, não era como hoje que as crianças só ficam dentro de casa mexendo em celular e vendo tv, posso dizer com prazer que tive uma infância feliz.

Diário do Estado: Quando foi que essa vontade de ajudar o próximo, cuidar do próximo foi despertada em você?
Manoel Júnior:
Foi ainda na juventude, eu era aquele amigo que sempre estava pronto para ajudar outros amigos, sempre estava em alerta caso alguém precisasse de mim, não tinha dia, não tinha hora, se alguém precisasse de mim, eu estava alí.

Diário do Estado: Vamos entrar agora na parte em que você de fato descobre esse seu chamado para cuidar de outras vidas, quando começou?
Manoel Júnior:
Em 2014 me formei em resgate APH (APH é a sigla utilizada para Atendimento Pré Hospitalar – aquele primeiro atendimento emergencial que ocorre geralmente fora do ambiente hospitalar. Esta é uma atividade fundamental para as vítimas de acidentes pois, muitas vezes, é neste momento que se evitam as fatalidades.) Foi então que eu descobri o que eu queria fazer da minha vida “ salvar vidas”.

Diário do Estado: E como foi? Mesmo sabendo que você passaria e veria situações extremas de fatalidades, acidentes e mortes você se sentia feliz na escolha que havia feito para sua vida?
Manoel Júnior:
Nunca me arrependi Glenda da escolha que eu havia feito, porque a satisfação que existe dentro de mim, a gratidão que existe dentro de mim em poder ajudar quem está precisando e saber que eu pude salvar uma vida é maior que qualquer dificuldade que as dificuldades da profissão me oferecem.

Diário do Estado: Hoje entre os cursos que você oferece em Coxim e falaremos deles mais adiante, você trabalha como socorrista na CCRMS-VIA, como são suas rotinas lá?
Manoel Júnior:
Pesadas, gostaria de dizer que meus plantões são tranquilos, mas raramente, muito raramente não acontece algum acidente que temos que nos deslocar da nossa base para atender, as pessoas em sua grande maioria são imprudentes, não respeitam as leis de trânsito e isso como consequência gera acidentes e muitos com morte. 

Diário do Estado: A maioria dos acidentes, quais os motivos Manoel?
Manoel Júnior:
Imprudência, sempre, sempre é a imprudência, ultrapassagens proibidas, excesso de velocidade, a pressa é a grande causadora dos acidentes, as pessoas em fração de segundos perdem a vida por total irresponsabilidade, se esquecem que com calma e paciência também chegam ao seu destino.

Diário do Estado: Quantos anos você está na CCRMS-VIA?
Manoel Júnior:
9 anos

Diário do Estado: Nesses 9 anos como socorrista na BR você já deve ter visto muitas coisas felizes e tristes, existe alguma ocorrência que você jamais se esquecerá? uma que tenha te impactado profundamente.
Manoel Júnior:
Houve sim Glenda, aconteceu um acidente entre 2 carros, em um carro haviam 3 pessoas, no outro também 3 pessoas, fomos acionados e ao chegar no local do acidente a cena era de destruição, não havia a mínima chance de alguém ter sobrevivido alí, os carros bateram de frente, em uma ultrapassagem proibida que um dos carros fez, era uma cena de filme de terror, saímos da viatura, nos aproximamos dos carros envolvidos no acidente e não vimos nenhum sobrevivente, ouvi então bem distante uma criança de aproximadamente 6 anos, uma menina, ela foi arremessada para fora do carro, mas o que mais me deixou perplexo foi que ela foi lançada para um monte de mato, parecia que Deus havia feito uma cama de mato, vegetação para que ela caísse ali e aquilo seria para amortecer a queda dela, ela simplesmente saiu ilesa do acidente, não quebrou nenhuma parte do corpo, estava mais assustada e perguntando pela família, eu me desloquei com a menina para viatura a levando para o atendimento médico e eu olha para minha superior e falava: Não tem como, isso aqui que aconteceu foi Deus, como essa menina conseguiu sobreviver a isso? Como ela foi lançada para aquele lugar e não se machucou, não quebrou absolutamente nada, como ela caiu exatamente naquela vegetação que mais parecia uma cama, sem bater em nenhuma árvore? Haviam árvores próximas dela, parece que o corpo dela foi desviado das árvores e caiu exatamente naquele lugar, até hoje eu me pergunto o que aconteceu naquele dia.

Diário do Estado: Você teve notícias dessa criança após o acidente?
Manoel Júnior:
Sim, eu descobri que ela morava perto, na cidade de Rio Verde MT/MS, cidade vizinha de Coxim, fui até a casa dela, levei uma camiseta do Flamengo para ela, porque durante o resgaste fui conversando com ela para acalmá-la e perguntei qual o time dela, ela me disse que torcia pelo flamengo e fui visitá-la e levei essa camiseta para ela, mas até hoje aquele dia não me sai da cabeça, hoje ela está com 9 anos, uma criança saudável e feliz, ela foi a única sobrevivente daquele acidente. Ao todo eram 6 pessoas envolvidas no acidente, foram 5 óbitos e somente ela de sobrevivente.

Diário do Estado: Vamos falar agora sobre um assunto que nos últimos meses têm tomado conta das mídias, vamos falar sobre engasgamentos Manoel, porque tantas pessoas têm se engasgado nos últimos meses? 
Manoel Júnior:
Glenda, é impossível atribuir por que acontece, se é fatalidade, pressa em mastigar, muitas pessoas também se esgasgam com a própriasaliva, ou simplesmente porque aconteceu, o que eu posso dizer é que as pessoas não estão preparadas para socorrer o outro caso isso aconteça, as pessoas acham que nunca precisarão fazer alguma manobra em alguém, até que precisem. Agora eu que vou te fazer uma pergunta, Glenda, você está preparada para fazer uma monobra para desengasgar alguém? ou sabe fazer massagem cardíaca?

Diário do Estado: Não Manoel, não tenho curso de primeiros socorros e também se hoje alguém precisasse de mim eu não saberia como proceder, e sei que deveria saber pois tenho uma mãe idosa.
Manoel Júnior:
Viu? mas não se sinta mal por isso Glenda, você faz parte da grande maioria da população brasileira que não têm conhecimento sobre APH, nos últimos meses vimos sim um grande número de casos fatais que levam a óbitos em idosos e crianças serem divulgados, aqui em Coxim inclusive houve um caso de uma criança que veio a óbito após se engasgar, isso acontece com mais frequência que pensamos, e na grande maioria as vítimas são idosos e crianças.

Diário do Estado: Você é habilitado para dar os cursos de APH em Coxim certo Manoel? e a procura por esses cursos é grande aqui?
Manoel Júnior:
Glenda, é inacreditável como o curso de APH e primeiros socorros cresceu em Coxim nos últimos meses, muitas pessoas têm nos procurado para começar fazer os cursos e sim, tenho cursos, certificados,treinamentos, que me credenciam para oferecer esses cursos na cidade, até porque também minha profissão é essa né? Sou socorrista, então tenho experiência salvamento.

Diário do Estado: Quais as pessoas que mais procuram para fazer os cursos manoel?
Manoel Júnior:
Na grande maioria são pessoas que cuidam dos seus pais idosos e pais com crianças pequenas em casa, eles querem saber como proceder em casos em que um idoso se engasga, sofre um infarto, um AVC, uma queda, já que a mobilidade dos idosos fica bem reduzida com passar dos anos, e no caso das crianças os pais fazem o curso por medo dos afogamentos e engasgamentos, mas os números de pessoas interessadas pelo curso triplicou nos últimos meses.

Diário do Estado: Quanto tempo dura um curso de APH e primeiros socorros?
Manoel Júnior:
Os cursos duram 3 meses, o material é todo oferecido por mim, acontecem sempre aos domingos, porque muitas pessoas que querem fazer trabalham durante a semana e não podem fazer então optei por fazer aos domingos.

Diário do Estado: Você tem um número estimado de quantas pessoas você capacitou este ano de 2024?
Manoel Júnior:
De janeiro até agora foram 57 pessoas, no mês passado, julho, formei uma turma agosto agora começou mais uma turma e a última turma será em outubro.

Diário do Estado: Qual sentimento em formar pessoas para ajudar outras pessoas Manoel?
Manoel Júnior:
De gratidão por poder contribuir de alguma forma e saber que alguns sacrifícios na vida valem a pena.

Diário do Estado: Nessa caminhada, existe alguma dor de ter perdido alguém?
Manoel Júnior:
Glenda, todas as vidas são importantes, das pessoas que eu conheço, e também das pessoas que eu não conheço porque elas são o amor na vida de alguém, então toda vida é importante, mas uma dor que acho que não será curada nunca, é não ter tido o poder para salvar minha mãe, ela faleceu há quase 1 mês, e esse era o atendimento que eu gostaria de ter conseguido sucesso, se dependesse de mim, mas Deus precisava mais dela que eu, e eu aceito, porque de tudo, ser filho dela me salvou, o amor dela por mim me salvou muitas vezes.

Diário do Estado: Hora do nosso bate-bola Manoel, vamos lá?
Diário do Estado:
Um cheiro?
Manoel Júnior: O cheiro da minha mãe 

Diário do Estado: Uma música?
Manoel Júnior:
Meu abrigo (Melim)

Diário do Estado: Um lugar?
Manoel Júnior:
Minha casa

Diário do Estado: Uma saudade?
Manoel Júnior:
Sem dúvida, da minha mãe

Diário do Estado: Um sonho?
Manoel Júnior:
Ser reconhecido pelo meu trabalho

Diário do Estado: Um dia feliz é?
Manoel Júnior:
Estar vivo

Diário do Estado: Um dia triste é? 
Manoel Júnior:
Quando perdemos quem amamos

Diário do Estado: O que te deixa com raiva?
Manoel Júnior:
Quando sei que estou certo mas tenho que me calar

Diário do Estado: Um dia perfeito é?
Manoel Júnior:
Poder fazer a diferença na vida de alguém

Diário do Estado: Uma lembrança?
Manoel Júnior:
Minha mãe

Diário do Estado: Uma comida?
Manoel Júnior:
Arroz, feijão e bife a milanesa

Diário do Estado: Uma cor?
Manoel Júnior:
Preto

Diário do Estado: Um sentimento?
Manoel Júnior:
Amor

Diário do Estado: Gratidão?
Manoel Júnior:
Estar vivo

Diário do Estado: Quem quiser se informar sobre os cursos qual contato?
Manoel Júnior:
Pelo telefone 67- 99892-1061

Diário do Estado: Gostaria que você deixasse suas considerações finais por favor Manoel
Manoel Júnior:
Gostaria de agradecer todos do jornal Diário do Estado de poder contar um pouco da minha história, e de como somos importantes e podemos fazer a diferença na vida das pessoas, nós escolhemos de que forma iremos impactar na vida do outro, de maneira positiva ou maneira negativa, poder ajudar pessoas, salvar vidas sempre foi o que eu quis fazer da minha vida, uns escolhem caminhos errados, eu escolhi lutar pela vida, não só pela minha mas de todas as pessoas, é isso que Deus espera de nós, é isso que devemos oferecer a Deus.