Jovem que havia denunciado professor por abuso é achado morto no Parque das Nações
7 OUT 2021 • POR Tero Queiroz - MS Notícias • 15h30Raul Pablo Antunes de Brum foi encontrado morto neste domingo (3.out.21) dentro do Parque das Nações, na Avenida Afonso Pena, em Campo Grande (MS). O rapaz de 18 anos estava desaparecido desde a sexta-feira (1º.out.21). A suspeita é que ele tenha cometido suicídio.
O jovem vinha fazendo acompanhamento psicológico depois de denunciar seu ex-professor de artes marciais, um dos donos da academia ArtFísica, Leandro Bussanello, de 36 anos, por abuso sexual. O homem é apontado por denunciantes como autor de ao menos 8 atos de violência sexual contra adolescentes para os quais ele dava aula de capoeira na Capital.
Segundo um dos organizadores de um movimento que acolheu os adolescentes para tratamento psicológico, em sua grande maioria, as vítimas são adolescentes carentes. Para conseguir abusar dos menores, o suspeito oferecia roupas, tênis e benefícios financeiros, a fim de garantir a compra do silêncio.
Raul teria sido vítima desde os 13 anos e além de ter sido abusado, teria assistido colegas sendo vítimas. No entanto, para Raul, segundo uma fonte, o suspeito nunca ofereceu benefícios financeiros. “Raul foi para a capoeira pois ele gostava muito e depois se apaixonou pela capoeira. Ele foi molestado por esse professor e se revoltou vendo que outros alunos também passavam pela mesma situação. Ele buscou esses alunos, mas ninguém quis se manifestar, então só foi ele e o primo Leonardo Bartziki que fizeram boletim de ocorrência. Todos os amigos dele se calaram, ninguém foi atrás até então”, explicou ao MS Notícias, com exclusividade, uma fonte que terá o nome preservado.
*O registro de ocorrência (Nº1291/2020) foi feito na Delegacia Especializada de Proteção a Criança e ao Adolescente (DEPCA) de Campo Grande, em 27 de novembro de 2020, quando Raul tinha 17 anos e "Leonardo Bartziki - 18 anos". No BO eles estão figurados como "vítimas", denunciando Leandro como abusador. Desde então, Raul passou a sofrer as consequências psicológicas deixadas pelo período de 5 anos que teria sido submetido a violência sexual.
“Esse professor também teria ameaçado ambas as partes falando que iria eliminar os dois”, completou a fonte. De acordo com familiares, eles não tinham conhecimento de que Raul fazia acompanhamento psicológico.
Todas as denúncias contra Leandro seguem sob sigilo judicial, inclusive há um print de uma condenação de mais de 9 anos em desfavor dele. Apesar disso, o registro em imagem não comprova a decisão judicial, já que não há acesso ao processo.
Segundo um dos integrantes do movimento em defesa das vítimas, o homem ainda estaria ministrando aula de capoeira e as denúncias contra o suspeito continuam a surgir. “Hoje alguns já são maiores de idade. O que eu acabei de receber é de um menino de 13 [anos]. E não faz 20 dias o abuso”, disse a fonte nesta terça-feira (5.ou.21). O denunciante terá o nome preservado.
O grande problema, de acordo com o grupo, é que o suspeito é manipulador e muitas pessoas estão defendendo e o protegendo, inclusive ocultando seu telefone de contato. “Infelizmente...Porque é perturbador o que ele faz”, lamentou o denunciante.
A reportagem apurou que o achado do corpo de Raul foi colocado também sob sigilo e que será investigado pela 3ª Delegacia de Polícia de Campo Grande, aos cuidados do delegado Ricardo Meirelles Bernadinelli. "Deve estar sim sob sigilo, se vocês [imprensa] não estão achando. É o delegado Ricardo quem vai investigar", disse um policial que atendeu a reportagem por telefone nesta tarde.
O MS Notícias telefonou à promotoria da Adolescência de Campo Grande para falar com o promotor Marcos Alex Vera de Oliveira, para que ele nos explicasse a situação processual. A assessoria do promotor, porém, disse que Marcos não poderia se manifestar, “em função do sigilo processual”.
À frente da academia está o irmão de Leandro, que é seu sócio. O empresário, Leonardo Busanello de Araújo, foi procurado por nossa reportagem para esclarecer se Leandro estaria ainda misnistrando aulas na academia. O irmão negou. "Desde março de 2020 ele não dá mais aula alguma. Essa reportagem que vocês vão lançar é muito tendenciosa. Essa história tem muito mais conteúdo. Só tomar cuidado para não se deixar levar por uma rivalidade entre professores que querem fazer de tudo para destruí-lo", argumentou.
Conforme o irmão, depois que as denúncias em desfavor de Leandro começaram a surgir a associação de capoeira criada pelo suspeito se reuniu para decidir o que fazer a cerca do caso. "(sic) O Leandro tem um processo transitando em julgado e por volta de agosto ou setembro [de 2020] esse processo foi exposto envolvendo o nome da associação de capoeira deles. Foi feito uma reunião onde a única pauta era o desligamento do Leandro e que eles continuassem com a associação. A associação tinha uma conta com 10.000 reais em poupança. Durante a reunião, o Leandro relutou em sair e aí começaram a discutir. A partir daí foi formado um coletivo pra decidir o que fazer em relação a isso. Coletivo Areias foi dado o nome. Coletivo esse do qual fazem parte essas pessoas que te procuraram. Desde então sofremos todos os tipos de ataques e ameaças", completou.
Provocado a falar o sobre o processo, o empresário disse: "Processo que está em sigilo. Ou seja não era pra ninguém ter acesso".
"O Coletivo Areias", citado pelo empresário é fomado por alunos e professores da associação de capoeira fundada por Leandro. Em 31 de agosto de 2020, o Coletivo emitiu nota de repúdio e uma nota de posicionamento em relação a associação (Veja no final do texto). Em documento público nas redes, o grupo pediu também a investigação de Leandro.
O SUPEITO
Leandro Busanello de Araújo começou a praticar capoeira em 1997, quando tinha 11 anos de idade.
Em 2005 recebeu o título de mestre no esporte e no ano seguinte montou o grupo 'Capoeira Roda de Bamba'. Mais tarde, em 2008, o projeto se tornaria a “Associação de Capoeira Roda de Bamba", que segundo o idealizador teria como intuito agregar valores e propiciar melhores condições para o estudo, fomento, desenvolvimento da arte, da luta e dos integrantes.
O suspeito não pôde ser localizado nas redes sociais para se manifestar. O irmão não quis fornecer o telefone de Leandro. O advogado Alexandre Daniel dos Santos, que esteve a frente do caso, disse que um novo defensor foi nomeado, esse seria o Presidente da Comissão dos Advogados Criminalistas da Ordem dos Advogados do Brasil, Seccional em MS (OAB-MS), Tiago Bunning, que não atendeu as tentativas de telefonemas.
NOTA DO COLETIVO
O Coletivo Areias vem por meio de esta carta prestar o posicionamento público sobre os casos referentes à estupro de vulnerável envolvendo integrante da escola de capoeira roda de bamba. Embora haja um processo em trâmite judicial abordando o assunto em questão e novas denúncias sendo registradas, ainda que os esforços incansáveis do corpo de educadores de capoeira ex-integrantes da roda de bamba que estão em busca primordialmente da justiça oferecendo espaço seguro e de amparo às vítimas seja com um bom ouvido ou encaminhando às autoridades competentes e profissionais de saúde mental não esta sendo fácil providenciar o afastamento definitivo do integrante da capoeira bem como encerrar as atividades que insistem em acontecer dentro da sede do grupo, acreditamos que essas condições não proporcionam um espaço seguro para o desenvolvimento de qualquer aspecto da capoeira ou de qualquer outra atividade esportiva e cultural.
Portanto, repudiamos de qualquer forma todas as atitudes tomadas com a capoeira, seja a promoção de aulas, rodas de capoeira e até mesmo eventos enquanto as questões judiciais não forem resolucionadas. Em vista dos fatos, novamente solicitamos o afastamento permanente do indivíduo das atividades com a capoeira compreendendo sua clara deslegitimação, pois, uma figura de resistência como representa o educador da capoeira não pode se transformar numa ferramenta de violência.
Sem obter outras declarações finalizamos alegando que exigimos a investigação legal/oficial dos casos e a transparência de comunicação em relação às conclusões do judiciário para a comunidade da capoeira e para todos. o Coletivo Areias continua organizado e coeso prestando acolhimento saudável das vítimas e encaminhando-as para autoridades responsáveis tendo os alunos e suas famílias como sendo nossa prioridade de suporte em grau máximo, em contrapartida mas não menos importante, articulamos a estruturação de um espaço seguro e profissionais qualificados para desenvolver a capoeira.
