“Estava rezando ajoelhado”, diz homem que simulou sequestro para não casar
19 OUT 2018 • POR Veja • 14h50A imagem pode parecer forte. Ajoelhado sob um gramado, o homem alto, com mais de 110 quilos, vestindo calça, camisa e sapato sociais aparece subjugado, indefeso, com as mãos para a frente. Parecia estar algemado ou com uma fita lhe apertando os pulsos. Era fim de agosto e dali alguns dias ele se casaria em uma grande festa marcada para ocorrer num restaurante chique de Brasília. A noiva, moradora de São José do Rio Preto, no interior, tinha aceitado começar a vida a dois em um local diferente do que estava habituada. Mas aquele “sequestro” poderia colocar tudo a perder. “E se ele morrer?”, pensou a mulher.
De posse da foto e de mensagens agressivas, enviada pelos supostos sequestradores pelo celular do homem ajoelhado, a mulher correu para a delegacia da cidade. Uma delas dizia o seguinte: “Vai catar o que sobrou dele. Só quero $ (dinheiro)”. Ao chegar ao local, logo percebeu a desconfiança dos policiais. Ouviu dos agentes que aquele sequestro nunca existiu e que por pouco não caíra em um grande golpe financeiro. Um dos motivos de desconfiança dos investigadores foi o fato de a mãe da “vítima” ter trocado mensagens com a nora e ter mantido uma enorme calma. Em uma das conversas, ela encoraja a moça a pagar o resgate. A participação da mulher, uma advogada da cidade, também está sendo investigada e ela pode ser indiciada por estelionato.
O sujeito “indefeso” da foto se chama Marcelo Henrique Morato Castilho, tem 34 anos, é advogado e se apresenta como jornalista, escritor, especialista em direitos humanos e embaixador da Paz pela ONU. É acusado de estelionato, agressão e cárcere privado. Na esfera cível, é processado por receber honorários advocatícios de clientes sem prestar os serviços prometidos. Por causa disso, seu registro na Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) está suspenso até que ele pague mais de 100 000 reais a uma cliente que lhe confiou os serviços para que seu divórcio fosse concluído. Ela ficou sem o dinheiro e com o casamento ainda válido.
Antes de se explicar sobre todas as acusações, Castilho diz que a história do casamento (o seu) não é bem assim como foi contada. “Se tem gente que desiste na frente do padre, por que eu não poderia mudar de ideia uma semana antes? Eu vi que não era aquilo que eu queria viver. Desisti com toda a educação e paguei o que devia. Aluguei um smoking e dei o sinal do restaurante, de 1 055 reais. Aliás, a minha ex-noiva poderia devolver a roupa, pois o aluguel está correndo até hoje”, afirma (veja abaixo um vídeo gravado pela ex-namorada logo após o pedido de casamento).
Procurada, a mulher não quis conceder entrevista. Mas e o sequestro? “Eu sou religioso, católico praticante e estava em ponto de oração. Pode ver na foto, não tem semblante de subjugação. Eu sempre rezo ajoelhado”, disse a VEJA SÃO PAULO, em uma entrevista realizada em um local público. “Tenho medo que façam algo comigo, pois não sou bem quisto pela polícia, por ser amplo defensor dos direitos humanos. Sou reconhecido por isso”.
