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Literatura Brasileira perde Manoel de Barros

14 NOV 2014 • POR Carlos Pires • 10h16

Cuiabano de nascimento, mas corumbaense de coração Manoel Wenceslau Leite de Barros, deixou a vida para se eternizar no mundo da literatura nacional e internacional. 
Parafraseando um poema de Fernando Pessoa que diz: “O poeta é um fingidor, finge tão completamente, que chega a fingir que é dor, a dor que deveras sente”, podemos concluir que não existe a morte para alguém como Manoel de Barros. Não cabe bem, até por sinal de respeito. O poeta nunca gostou que colocassem data na sua existência. Então, o dia é de mais uma daquelas inutilidades que a vida inventa e que ele por tantas vezes substantivou.
O coração parou por volta das 8h05 desta quinta-feira, no Proncor, depois de seis meses em estado de ruína, como ele mesmo definia os efeitos dos 97 anos de idade, quase 98, que seriam comemorados no dia 19 de dezembro.
No dia 24 de outubro, Manoel foi internado para cirurgia de desobstrução intestinal. Depois, permaneceu na UTI, já sem reconhecer os parentes. Os últimos meses foram em uma cama ou na cadeira de rodas, em casa, se alimentando por sonda, auxiliado por 4 enfermeiros, sem lápis ou leitura, sem falar ou andar. Ironicamente, por fim ficou como vegetal, como seu auto-definia.
Manoel sofreu pelas doenças do corpo e da alma, desbotada pela perda dos dois filhos. Pedro se foi em 2013. Antes, João Wenceslau, em decorrência de um acidente aéreo em 2007. Nunca mais o poeta teve muitas vontades.
Barros nasceu em Cuiabá (MT), no Beco da Marinha, na beira do rio, mas veio criança para Mato Grosso do Sul e se tornou morador ilustre da Rua Piratininga, no Jardim dos Estados. Depois aportou em Corumbá onde viveu o restante de sua vida no seu sítio em meio à natureza.
Em Mato Grosso do Sul, Manoel de Barros tirou o homem do centro das atenções para falar de sapos, formigas, cobras e gotas d’água. “Poderoso não é quem descobre ouro, mas quem descobre as insignificâncias”, dizia ele. Falando assim seguiu uma vida toda, dando lições de humildade. Admirava o mito do cinema mudo, Charlie Chaplin, por ele ter “eternizado” o gentil e admirável vagabundo.
Conversava, pessoalmente ou por telefone, com quem o chamasse para uma prosa. Uma rotina que terminou há cerca de dois anos, quando o contato ficou restrito à família e aos enfermeiros, por conta do estado de saúde de Manoel que o trancava em casa. Nem sequer um autógrafo mais conseguia desenhar.
Antes de partir, teve a oportunidade de deixar como despedida o orgulho de ser lido, amado e lembrado graças à poesia. “O ser biológico é sujeito à variação do tempo, o poeta não”, ensinou Manoel.

“Uso a palavra para compor meus silêncios.
Não gosto das palavras
fatigadas de informar.
Dou mais respeito
às que vivem de barriga no chão
tipo água pedra sapo.
Entendo bem o sotaque das águas
Dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que a dos mísseis.
Tenho em mim um atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos...”
(Manoel de Barros)